Resenha: Redescobrindo as fronteira.

Educação e Pedagogia

18/06/2017

FICHA DE LEITURA

Redescobrindo as fronteira. A sobrevivência histórica das regiões no processo de construção estatal do Brasil e Argentina. In: HARRES, Marluza M.; REGUERA Andrea (Orgs.). Da região à nação. Relações de escala para uma história comparada Brasil-Argentina (séculos XIX-XX). São Leopoldo. Oikos, 2011, p..17-48.

Breve currículo das autoras: BANDIERI, Susana Ofelia, de nacionalidade Argentina, Professora em História: UNCo, 1971; Licenciada em História UNCo. 1980; Doutora em Filosofia e Letras-Especialidade em História pela Universidade Autónoma de Madrid, Espanha, 2000. Professora Titular e Regular do Departamento de História, Fac. de Humanidades, UNCo., cátedras Argentina I, Argentina II e Seminário de História Regional. REICHEL, Heloisa Jochims, possui graduação em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1970), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1978) e doutorado em História pela Universidade de São Paulo (1989). Professora aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Desenvolve pesquisa na sub-área de História da América, investigando os seguintes temas: américa latina, região platina, fronteiras, intelectuais, imprensa, representações, identidade. Informações obtidas do Boletín del Instituto Ravignani (Argentina) e CNPq – Currículo Lattes.

 

Palavras chaves: Fronteira – Região – Identidade – Nacionalismo

 

Breve Resumo: Em seu texto, as autoras abordam a dinâmica sobre a História Regional, buscando mostrar que nos últimos anos, avanços importantes das pesquisas permitiram redefinir a noção de região, o que nos permite observar os contatos entre os países, recuperando a ideia de fronteira como espaço social de interação. Descrevem duas áreas importantes de conhecimento que são: História e Geografia, pois elas contem coordenadas de tempo e espaço.

Redescobrindo as fronteira. A sobrevivência histórica das regiões no processo de construção estatal do Brasil e Argentina.

Com esses novos estudos passou-se a observar a região fronteiriça como um espaço aberto, no qual o conceito de região é construído a partir das interações sociais que a definem no espaço e no tempo, deixando de lado qualquer delimitação que pretenda concebê-la como uma totalidade preexistente, com traços de homogeneidade definindo uma conexão entre a população, as culturas, as economias e os poderes.

Ao abordarem as concepções da história regional do Brasil, observam que a centralização política do Império propiciou o surgimento de uma historiografia baseada no eixo Rio de Janeiro e São Paulo, sendo a primeira o centro político e a segunda o centro comercial, o que continuou com o advento da República, e que continuou com o Sistema Federativo implantado por essa, possibilitando o fortalecimento dos sentimentos de identidade em cada unidade da Federação, gerando o florescimento das histórias regionais. O termo região no meio historiográfico só surgiu no Brasil na década de 1980, onde iniciou um processo de uma nova visão na maneira de ver o recorte regional. Nos 1990 começou um processo referente à historiografia sul-rio-grandense, no qual seguindo uma linha de raciocínio de tempo e espaço, história e geografia se integram e complementam-se, dando significado aos processos sociais. A partir disso, tendo como ponto de partida a fundação do Presídio de Rio Grande em 1737, como ponto inicial para a História do Rio Grande do Sul. Mas observaram que a região das Missões fundadas e mantidas pelos Jesuítas espanhóis e a Região Platina, não foram contempladas, porém já havia nessas regiões manifestações sociais, mas para alguns historiadores eram espaços que deveriam ser ocupados.

Com relação à Região da Campanha ou Região Platina, é possível realizar uma identificação de um espaço regional, que através de elementos históricos e geográficos nos permitem defender uma integridade econômica, social e cultural. Os elementos geográficos são a desembocadura do Rio da Prata e as terras planas, férteis e com pastagem abundante que compõem a planície da campanha, ou pampa. Já os históricos relacionam-se com a formação econômica, social e cultural da região. A partir da colonização, após o contato do europeu com o habitante local e a introdução do gado bovino e equino, definiu essa formação nessa região. A fronteira entre os dois Impérios e a rede fluvial possibilitou o acesso de navios, o que estimulou o comércio e o contrabando entre os povoadores da região. Essa convivência entre esses homens desenvolveu sentimentos, vivências e ideias, que constituíram uma história sociocultural em espaço delimitado. Com a formação dos Estados Nacionais, em razão das transformações ocorridas na colônia em decorrência da invasão francesa na Península Ibérica, a região da fronteira não sofreu grande impacto, pois os negócios que envolviam terras, gado e circulação de pessoas e ideias durante o século XIX, mostrou-se mais dinâmico para experiências sociais, econômicas e culturais comuns as espaço da Região Platina.

O espaço geográfico dessa região corresponde a uma grande extensão de terras, que atualmente correspondem as áreas do Brasil, Uruguai e Argentina, nele encontramos a presença de fronteira internas.

O conceito de fronteira corresponde a dois segmentos: o primeiro corresponde ao de fronteira de linha, este define territórios. O segundo a fronteira de zona, privilegiado pela sociedade platina, que promove intercâmbios e interações econômicas, sociais, políticas e culturais. No passado a fronteira zona se sobrepunha a fronteira linha, mas hoje é o inverso, pois com a construção das identidades nacionais uma nova mentalidade se forma, pois cada Estado procura criar sua própria historiografia. Mas neste contexto a fronteira zona ainda estava em uso, pois apesar das disputas territoriais na região o intercâmbio comercial, circulação de pessoas, as alianças e a identidade de interesses de grupos sociais estavam acima do sentimento patriótico e de identidade nacional.

Em uma suas várias pesquisas as autoras referem-se aos mitos dos fundadores das histórias do Uruguai e Rio Grande do Sul, onde intelectuais dos dois lados retratam os sentimentos existentes na região, ao enaltecerem a heroicidade de Artigas e Bento Gonçalves, onde pode-se observar entre muitas semelhanças a de serem o “líder dos gaúchos”, homens que vivam no campo e que apreciavam a liberdade.

Com relação a Argentina, assim como o Brasil, o processo de construção e consolidação do Estado-Nação, ocorrido ao longo do século XIX, exigiu a elaboração de uma história nacional encerrada nos limites soberanos da nascente instância de dominação, levando a uma construção historiográfica marcadamente centralizada. Um forte enclave na Argentina foi a região da Patagônia, pois quando as instituições nacionais em pleno processo de consolidação decidiram estender coercitivamente seus domínios sobre a sociedade indígena, até então soberana no território, e que mantinha livre circulação na região andina e chilena. Para inibir a fronteira zona, o poder central argentino desenvolveu o acionamento de uma série importante de “agentes civilizadores”, portadores da modernidade, como militares, cientistas, técnicos e religiosos entre outros. Era necessário “argentinizar” a população, dar referências ideológicas e dotar o meio social, para que a comunidade fosse homogenia. Mas o trabalho foi longo, pois a população índia, chilena e mestiça era dominante principalmente nas áreas rurais, significativamente majoritárias. No início do século XX houve uma intensificação muito grande de “argentinação” da região, com a construção de infraestrutura em caminhos e comunicação, um incremento na criação de escolas de fronteira e a generalização dos rituais escolares, para a criação da identidade nacional.

Quanto ao Chile ocorreu o inverso, pouco a pouco se cortavam os antigos vínculos históricos impostos pela anterior necessidade de subsistir. O processo de modernização e de transformação foi posto em marcha para romper definitivamente com a imagem do deserto patagônico. Mas a partir da senda metade da década de 1950, quando se supunha que tais vínculos estivessem cortados, resolveu-se o longo e conflituoso problema da conversão dos territórios nacionais em províncias e de seus habitantes em cidadãos plenos da nação. Então os limites soberanos do Estado nacional foram também os limites de uma historiografia construída de costas para as fronteiras.

Nos últimos anos por efeito direto das mudanças no sistema mundial, à questão da integração entre Argentina e Chile voltou a ser tema de interesse dos governos, conformando que são políticas estatais que tornam relevante as questões fronteiriças. Nas condições atuais, as novas estratégias políticas e um importante número de passos fronteiriços que comunicam naturalmente a região abrem potenciais formas de integração, gerando uma série de expectativas em nível local e nacional.

Ao observar este trabalho, nota-se que a História Regional, pode constituir uma alternativa válida para superar as visões fortemente centralizadas das historiografias nacionais, pois a circulação de ideias, pessoas e conhecimentos, contatos e intercâmbios fronteiriços e a existência de espaços transnacionais favorecem a interpretação de uma historiografia das regiões de fronteiras, possibilitando que através de novas metodologias é possível resgatar e história das regiões.

 

Referência bibliográfica: REICHEL, Heloisa; BANBIERI, Susana.

 

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Wilson Brasil Júnior

por Wilson Brasil Júnior

Bacharelando em Licenciatura/História

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