Quem tem medo do vocabulário gírio?

Educação e Pedagogia

17/02/2016

O medo é um sentimento comum ao ser humano. Ele teme, sobretudo, aquilo que lhe é desconhecido e que se apresenta como uma ameaça à segurança e estabilidade de suas ideias sobre o mundo, a vida, as pessoas e as coisas como um todo.

Tememos, por exemplo, a morte, por estar envolta em mistérios, restando-nos apenas hipóteses, teorias, suposições a seu respeito; a violência, por ser cada dia mais comum e suscetível de que sejamos vítimas. Tememos a nossa própria língua, quando esta não se apresenta na forma das práticas, seguras e conhecidas regras disponíveis em manuais ao alcance de nossas mãos; os regionalismos, por serem palavras e expressões de lugares nos quais nunca estivemos ou que pouco conhecemos; os neologismos, por serem termos que nunca antes ouvimos, falamos ou escrevemos; o vocabulário gírio, por ser uma forma de se expressar de grupos, não raro, marginalizados.

Ter medo é, em certa medida, uma estratégia de defesa, uma forma de nos precavermos e não nos aventurarmos por caminhos que não sabemos onde nos levarão e a que riscos nos submeterão.

Contudo, em se tratando de língua, quem tem medo de se aventurar, de descobrir coisas novas, de ir além da segurança da gramática normativa, jamais conhecerá as outras faces que essa mesma língua possui, aquelas que não são possíveis transformar em regras e transmitir aos falantes, pois estão na conversação diária e mudam constantemente.

É o caso do vocabulário gírio, que se modifica de acordo com a época, a geração, o espaço físico e a necessidade dos diversos grupos sociais de terem uma linguagem própria, que os diferencie dos demais.

Se conseguíssemos perceber recursos linguísticos como a gíria, como formas variadas e eficazes de comunicação, o medo talvez deixasse de existir.

Mas como não é tão simples acabar com os medos e preconceitos, esperamos com este trabalho ao menos mostrar outros aspectos do vocabulário gírio, procurando entender, o que são grupos sociais, o que é gíria, qual a finalidade e intenção do seu uso e porque mesmo sendo um recurso linguístico amplamente utilizado, ainda é visto com receio por muitos falantes.

Definição de grupo

B. Horton e L. Hunt em estudo intitulado “Sociologia”, definem grupo como sendo, qualquer número de pessoas que partilham de consciência de filiação e interação. Fazem ainda, uma distinção entre os diversos grupos sociais, que podem ser:

Grupos pessoais – são aqueles aos quais pertenço, como por exemplo, a minha família, minha profissão, minha igreja etc.

Grupos externos – são aqueles aos quais não pertenço, estou fora deles, não posso conceituá-los como “meu, minha, meus, minhas”, pois se tratam de outras famílias, outras turmas, outras ocupações.

Grupos primários – são aqueles nos quais estabelecemos contatos sociais que são íntimos, pessoais e totais, ou seja, os membros destes grupos se interessam uns pelos outros como pessoas, partilham de experiências.

Grupos secundários – nesses grupos, os contatos são impessoais, segmentários e utilitários, as qualidades pessoais não importam, mas sim o desempenho. Fazem parte desse grupo, por exemplo, o sindicato trabalhista, o conselho de bairro, enfim, esses grupos existem para um propósito específico no qual o objetivo principal é alcançar determinadas metas.

O que é gíria?

Segundo Dino Preti, a gíria é um fenômeno sociolinguístico que pode ser estudado sob duas perspectivas. A primeira é a gíria de grupo (por isso a importância de entender, num primeiro momento, o que é grupo) ou seja, a gíria como sendo um vocabulário de grupos sociais restritos, cujo comportamento se afasta da maioria, quer seja pelo inusitado, quer seja pelo conflito que estabelecem com a sociedade.

Esses grupos podem ser:

Inusitados grupos jovens ligados à música, à dança, às diversões, aos esportes, aos pontos de encontro nos Shoppings, à Universidade etc.

Conflituosos/violentos – grupos comprometidos com a droga e o tráfico, com a prostituição, com o roubo e o crime, com o contrabando, com o ambiente das prisões etc.

A segunda perspectiva de estudo e pesquisa, é a da gíria comum, que estuda a vulgarização do fenômeno.

Uma outra perspectiva sob a qual podemos examinar a gíria, é a histórica e etimológica, encontrada no estudo “As gírias da vida marginal, de 1500 até hoje”, de Ernesto Ferrero, no qual assim a defini:

Como “gíria” (termo de provável origem provençal: italiano antigo gergone, francês jargon, espanhol girgonz e geringonza, português gerigonza, gira, gíria) se designam genericamente as línguas especiais, faladas por grupos sociais específicos, que não se desejam fazer compreender pelos outros: “uma furtiva criação da inteligência humana” (Ascoli), arma de defesa para os delinqüentes, para as seitas religiosas e políticas, vínculo ideal para grupos corporativos (operários, artesãos, técnicos, vagabundos, atores, etc.) (p. 3)

Ferrero ressalta, ainda, a influência da língua cigana, sobre a gíria.

A influência da língua cigana (de origem sânscrita e rica, cheia de contribuições europeias, especialmente alemãs) é todavia, bastante sensível, como documenta o estudo de Tagliavini e Menarini,  termos ciganos na gíria bolonhesa (2) (exemplos: cão; grai ou krai, cavalo; piola, negócio, loja; gaggio, camponês, simplório). (p.2-3)

Sobre esse caráter andarilho, inovador e mítico do povo cigano é digno de nota, o modo como são retratados no livro “Cem anos de solidão, do escritor colombiano, Gabriel García Márquez, no qual criou uma cidade fictícia chamada Macondo, que tem como habitantes a família de José Arcadio Buendía e mais outras poucas pessoas. Até que chegam os ciganos e com eles novidades trazidas de diversos lugares do mundo, lugares que o povo de Macondo jamais supunham existirem:

“Eram ciganos novos. Homens e mulheres jovens que só conheciam a sua própria língua, exemplares formosos de pele oleosa e mãos inteligentes, cujas danças e músicas semearam nas ruas um pânico de alvoroçada alegria, com suas araras pintadas de todas as cores que recitavam romanças italianas, e a galinha que punha uma centena de ovos de ouro ao som do pandeiro, e o macaco amestrado que adivinhava o pensamento, e a máquina múltipla que servia ao mesmo tempo para pregar botões e baixar a febre, e o aparelho para esquecer as más recordações, e o emplasto para perder o tempo, e mil outras invenções tão engenhosas e insólitas, que Jose Arcádio Buendía gostaria de inventar a máquina da memória para poder se lembrar de todas. Num instante transformaram a aldeia (...).” (p. 21)

Vimos, resumidamente, o que é grupo e o que é gíria, e o que seria a gíria de grupo?

A esse respeito Preti postula que:

A gíria de grupo (também denominada por alguns de gíria marginal) é usada por falantes que pretendem comunicar-se com seus interlocutores, sem serem entendidos por outros que não pertencem ao grupo. Preservando, portanto, a significação dos vocábulos, a gíria torna-se uma linguagem secreta, somente compreensível aos iniciados. (Estudos de língua oral e escrita, p. 67) 

Qual a intenção do uso do vocabulário gírio?

Ferrero afirma que a primeira intenção é a de subtrair-se ao controle dos outros, estabelecendo um tipo de comunicação decifrável somente por quem possua seu código, colocando-se, assim, fora da norma social. Esta circunstância tem feito da língua especial dos malfeitores a gíria por excelência, a fala secreta mais extensa e característica (...) (p. 2)

Para Preti, o falante pode ter a intenção de não ser entendido pelo interlocutor ou de agredi-lo, falando uma linguagem cujo significado lhe é desconhecido, o que o coloca à margem da conversação. (p. 67)

Uma outra intenção abordada por Preti, é a dos grupos restritos que criam novos vocábulos gírios, inventam novos significados, para manter-se sempre falando de maneira diferente e original e também para acompanhar a sociedade contemporânea, em seus costumes que evoluem com uma velocidade nunca antes imaginada, na qual tudo fica obsoleto, superado em pouco tempo, desse modo, o vocabulário gírio é um reflexo dessa sociedade e de suas mudanças.

Quem tem medo do vocabulário gírio?

- Todos aqueles que o associam a grupos de baixo prestígio social como, por exemplo, os ladrões, traficantes, prostitutas etc. e, por consequência, temem serem taxados como integrantes de tais grupos, se usarem a linguagem destes.

– Quem tem medo de não ser aceito em determinadas situações sociais (entrevista de emprego, por exemplo).

– Quem acredita que é “errado” usar um vocabulário que foge à norma culta padrão da língua.

– Quem ainda não percebeu a gíria como um elo de ligação entre o sujeito e a sociedade.

– Quem desconhece o fato de que não há certo ou errado, em se tratando de língua, mas sim adequado e inadequado a determinados contextos.

– Quem vê o mundo sob um prisma único, no qual os diversos grupos sociais não existem (jovens, idosos, etc.).

Não adianta, entretanto, apenas conhecer nossos medos em relação à língua, é preciso ter vontade de superá-los, nos darmos a oportunidade de experimentar palavras novas, expressões, gírias.

As pessoas de Macondo, também se assustaram com a chegada dos ciganos, povo que desconheciam, mas passado o primeiro momento de surpresa, se abriram ao conhecimento que deles poderiam obter.

Quem sabe, depois de conhecer um pouco mais sobre a gíria, descubra nela, não um aspecto da língua a ser evitado, mas uma fonte de conhecimento sobre a sociedade em que vivemos. 

Referências Bibliográficas:

CASCIANI, Clément. História da gíria.

FERRERO, Ernesto. As gírias da vida marginal.

HORTON, B. Paul; HUNT, L. Chester. Grupos sociais. São Paulo: MAKRON Books do Brasil Editora Ltda.

MARQUEZ, Gabriel García. Cem anos de Solidão. Rio de Janeiro: Editora Sabiá.

PRETI, Dino (Org.) Estudos de língua oral e escrita. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

 

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Deniz Adriana Santos

por Deniz Adriana Santos

Mestranda em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Pós-graduanda em Gestão Estratégica em Educação a Distância pelo SENAC-SP. Graduada em Letras Português, Licenciatura e Bacharelado, pela PUC-SP. Possui experiência com ensino de Língua Portuguesa. Experiência em Educação Superior nas áreas de Tutoria de Língua Portuguesa e produção de conteúdo para EaD. É fundadora e CEO do Portal do Ensino.

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