INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA EM CRIANÇAS COM TDAH

Intervenção psicopedagógica.
Intervenção psicopedagógica.

Educação e Pedagogia

12/10/2015

Marcela Guimarães Girardi Pereira ¹


RESUMO: Este artigo tem por objetivo mostrar a importância da Intervenção Psicopedagógica em crianças com TDAH, e para a confecção deste utilizei como referência os embasamentos teóricos de João Beauclair e de Márcia Souto Maior Mourão Sá e outros, que discutem o verdadeiro objetivo da Psicopedagogia nos dias de hoje. Com os estudos constatei que é de suma importância a intervenção psicopedagógica em crianças com TDAH, uma vez que com seu o apoio e intervenção são capazes de levar pessoas ao alcance do sucesso na vida escolar, devido este profissional procurar compreender e analisar os motivos que levam as pessoas a obterem resultados insuficientes ao esforço aplicado pela aprendizagem.

Palavras-chave:
Psicopedagogia; TDAH; intervenção; aprendizado.


1. 1. Introdução

Em pleno século XXI perguntas sobre como lidar com crianças com TDAH são muito frequentes dentro do ambiente escolar e do familiar. Dentre estas perguntas estão: Pessoas portadoras desta dificuldade de aprendizagem são capazes de aprender? Existe alguma forma de intervir? Todo desatento é diagnosticado como TDAH?

Ao surgir estes questionamentos desatentos e inquietos representam um grande desafio para a educação, uma vez que necessitam de um tratamento voltado para a construção do conhecimento que por alguma razão não consegue adquirir, e é a partir deste momento que o psicopedagogo se faz necessário.

O psicopedagogo tem informações necessárias para orientar pais e professores, devido este ser responsável por estudar a origem da dificuldade de aprender, e a partir desta dificuldade desenvolver estímulos que despertem as funções cognitivas que não estão ativas.

Partindo deste pressuposto de que existe certo receio por parte de pais e professores de ensinar e lidar com estas crianças, surgiu o meu interesse e escolha deste tema, para que desta forma fosse possível aprofundar meus conhecimentos na intenção de conscientizar todos os segmentos sobre a necessidade e os benefícios do psicopedagogo.

Ao abordar este tema não busco criticar pensamentos e opiniões, mas sim mostrar a intervenção psicopedagógica em TDAH aprofundando em suas finalidades e objetivos.

Como referencial teórico, utilizei as análises do livro “TDAH e Interdisciplinaridade, Intervenção e Reabilitação” por Muszkat (2012), cuja discussão permite uma visão interface entre os vários domínios, do diagnóstico á intervenção no TDAH; do “TDAH nas Escolas – Estratégias de Avaliação e Intervenção” dos autores J.Dupaul e Stoner (2007), que tem como objetivo o enfoque claro de como se estabelece a avaliação e intervenção; o livro “TDA/TDAH – Transtornos de déficit de Atenção e Hiperatividade” de Phelan (2005) que mostra a trajetória do TDAH; o livro “Introdução a Psicopedagogia” Mourão et. al (2013); juntamente com os livros “Psicopedagogia – Trabalhando Consequências, Criando Habilidades” de Beauclair (2007) e “Teoria e Práticas da Pedagogia Institucional” de Serra (2012); “Intervenção Psicopedagógica na Escola” Oliveira (2009), retratam a história e desenvoltura dos psicopedagogos nos dias atuais.


1. 2. Desenvolvimento

2.1 Marco Inicial da Psicopedagogia


De acordo com a autora Márcia Souto Maior Mourão Sá do livro “Introdução a Psicopedagogia”, a educação na antiguidade ocorria no cotidiano de cada indivíduo, sendo que, ao adquirirem condições para trabalhar eram inseridos como aprendizes de oficio.

A educação sistematizada como conhecemos hoje começou a ser inserida apenas em meados do século XVIII, período este conhecido como Modernidade. Sobre este período a autora Márcia Souto (2013, p. 7) afirma que “Pela primeira vez os jovens são afastados de suas famílias para aprenderem com outros adultos, seguindo metodologias e currículos comuns”.

Utilizando este ensino começam a surgir rumores de que nem todos os alunos são capazes de aprender com a mesma facilidade e rapidez, em virtude disso estudiosos do final do século XIX começaram a se preocupar com os aspectos que interferem na aprendizagem assim como nos afirma Mourão (2013, p. 7) “No final do século XIX, educadores, psiquiatras e neuropsiquiatras começaram a se preocupar com os aspectos que interferiam na aprendizagem e a organizar métodos para a Educação Infantil”.

A preocupação com as dificuldades de aprendizagem foi o marco inicial para o desenvolvimento da Psicopedagogia, esta que ao decorrer dos tempos tornou-se um elo importante para a compreensão do processo pedagógico.


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¹ Graduação em Pedagogia, especialização em Psicopedagogia pelo Centro Universitário Barão de Mauá, Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil. E-mail do autor: marcela_g_pereira@hotmail.com. Orientador: Rosemary Conceição dos Santos.
2.2 Psicopedagogia no Brasil

A Psicopedagogia começou a surgir no Brasil a partir das influências europeias, esta que por sua vez teve o surgimento dos métodos psicopedagógicos em meados do século XX, e em contra partida ocorreu no EUA organizações que enfatizavam as dificuldades de aprendizagem como problemas medicinais.

Desta forma, Sá (2013) cita que:

O movimento europeu acabou por organizar a Psicopedagogia, enquanto o americano proliferou a crença de que os problemas de aprendizagem possuíam causas orgânicas e precisam de atendimento especializado influenciando parte do movimento da Psicologia Escolar que até pouco tempo, determinou a forma de tratamento dado ao fracasso escolar. (SÁ et al., 2013, p. 8)

Devido ao fato de sofrer influências europeias o Brasil tem até os dias de hoje as atitudes psicopedagógicas voltadas as dificuldades de aprendizagem assim como nos afirma Beauclair em uma de suas passagens do seu livro “Psicopedagogia – Trabalhando Consequências, Criando Habilidades” quando nos diz que:

Sabemos que a Psicopedagogia no Brasil está se consolidando cada vez mais, num movimento de busca concreta por respostas e alternativas aos problemas vinculados ao aprender, que se avolumam no cotidiano da escola, cujas consequências se fazem cada vez mais presentes no contexto social. (Beauclair, 2007, p.37)

Para a compreensão dessas atitudes tomadas pelo ramo psicopedagógico João Beauclair nos propõe a metáfora do fio e da rede. Nesta metáfora o autor compara os fios com o conhecimento e a rede com os resultados da aquisição de conhecimentos humanos que terão sua importância para o entendimento da Psicopedagogia uma vez que esta se encontra intimamente ligada a compreensão dos recursos utilizados por cada um para a aquisição ou não de conhecimento, assim como nos afirma no trecho a seguir:

É preciso enredar, se entrelaçar fazer-se fio, tecido, nó, ponto de confluência, estação de emissão e recepção, de saberes, é necessário ser elo de interligação entre outros eus, outros sujeitos constituídos em busca de um outro tempo, uma outra vida. (Beauclair, 2007, p.50)

Tendo em vista que a Psicopedagogia deve entender os aspectos que dificultam a aprendizagem é necessário que esta tenha em mente o que Beauclair (2007, p. 51) disse “Só podemos conhecer pessoas, situações, objetos e fenômenos realizando ações que possam estabelecer relações com e entre eles”.

Com a afirmação do autor Beauclair chega-se a conclusão de que é preciso entender os caminhos percorridos pelo aprendente, uma vez que, todo ser humano tem seu próprio meio de alcançar a aprendizagem.

Desta forma, percebe-se que o psicopedagogo se faz necessário para propor mudanças sobre os processos cognitivos, podendo este profissional ser classificado como clínico e institucional.


2.3 Psicopedagogo Clínico

O psicopedagogo clínico atua de forma ampla, investigando e promovendo as possibilidades de mudanças sobre os processos cognitivos, emocionais e pedagógicos que podem estar dificultando a aprendizagem de seus pacientes.

Na medida em que trata dos processos diagnosticados, também previne seus pacientes de sofrerem outras dificuldades pessoais decorrente dos transtornos de aprendizagem como apontou Loville (1996 apud SÁ, 2013 p. 53):

Adotar o enfoque clínico significa basicamente, preocupar-se com os processos inconscientes, seja numa relação, num sujeito em situação num grupo, nas instituições, seja nas sociedades quando se é sociólogo. Refere-se aos fenômenos que atuam com uma força dificilmente dominável e uma lógica própria

O psicopedagogo clínico trata-se de um fenômeno não identificado pelo grupo ou pelo sujeito, cujo reconhecimento necessita de alguém que por não estar na situação pode ajudar na identificação.

Partindo deste pressuposto, o tratamento deve estar voltado para construção do conhecimento e não para o produto final.

O psicopedagogo clínico é responsável por desenvolver atividades que estimulam as funções cognitivas que não estão ativas no paciente a partir do estudo da origem da dificuldade em aprender.


2.4 Psicopedagogo Institucional

Segundo Dayse Carla Gênero Serra, autora do livro “Teorias e Práticas da Psicopedagogia Institucional” a Psicopedagogia Institucional é diferente da Psicopedagogia Clínica que tem o caráter predominantemente curativo, devido esta ser predominantemente preventiva. A área institucional divide-se em três formas que são escolar, empresarial e hospitalar. O atendimento escolar ocorre normalmente na escola com o objetivo de desenvolver habilidades e competências. Enquanto isso, a empresarial ocorre nas empresas, procurando melhorar o desempenho dos profissionais, diferente da hospitalar que colabora para o desenvolvimento cognitivo das crianças e jovens que estão internados por longos períodos e são afastados das escolas.

Diante dessas diferentes formas de atuar do psicopedagogo, Serra (2012) ressalta que a prática pedagógica envolve o sujeito por inteiro, ou seja, deve levar em conta os aspectos orgânicos, cognitivo, afetivo, social e pedagógico.

De acordo com a autora:

O aspecto orgânico diz respeito a construção biológica do sujeito; portanto a dificuldade de aprender de causa orgânica estaria relacionada ao corpo. O aspecto cognitivo está relacionado ao funcionamento das estruturas cognitivas. Nesse caso, o problema de aprendizagem residiria nas estruturas do pensamento do sujeito. (...) O aspecto afetivo diz respeito á afetividade do sujeito e de sua relação com o aprender, com o desejo de aprender, pois o indivíduo pode não conseguir estabelecer um vinculo positivo com a aprendizagem. O aspecto social refere-se a relação do sujeito com a família, com a sociedade, seu contexto social e cultura. (SERRA, 2013 p.31)

Adotando todos estes aspectos é possível que o psicopedagogo compreenda os processos de desenvolvimento da aprendizagem que o indivíduo utiliza para adquiri o conhecimento, e a partir deste ponto descobrir o aspecto que venha a impedir a aquisição do mesmo.

Desta forma, a intervenção psiopedagógica se faz necessária dentro da instituição escolar para identificar os possíveis fracassos escolares que muitas vezes trata-se de problemas afetivos e neuropsicológicos, assim como é no caso do TDAH.


2.5 O que é TDAH?

Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (2013, p.1) ², o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é um transtorno neurológico, de causas genéticas, que frequentemente acompanha o indivíduo por toda vida. O transtorno se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade e muitas vezes são chamadas de DDA, que quer dizer Distúrbio de Déficit de Atenção.

De acordo com o autor do livro TDA/TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Thomas W. Phelan (2005) as características mais marcantes do TDAH são distração, impulsividade, impaciência, hiperatividade, superexcitação, desobediência, problemas sociais e desorganização. O autor trata as distrações como sendo visuais, auditivas, somáticas e de fantasia, assim como nos diz:

Distrações visuais são coisas dentro do campo de visão da criança que atraem sua atenção, desviando-a do trabalho ou tarefa. Por exemplo, se alguém anda por perto, ela vai levantar a cabeça para dar uma olhada, e, então, pode não conseguir retomar sua tarefa. Distrações auditivas são sons que a criança ouve que a incomodam. Pode ser sons claros e altos ou sons mais baixos, como o tique taque de um relógio, alguém batendo com um lápis na mesa, ou outra criança fungando. Distrações somáticas são sensações corporais que desviam a atenção da criança. Já vimos várias crianças reclamarem que mal podem aguentar quando a costura de suas meias não está no lugar certo. Elas se inquietam e não conseguem se concentrar. Os mesmos resultados ocorrem se seu estômago estiver roncando, se a cadeira não parece confortável ou se estiverem com dor de cabeça. Distrações fantasia são pensamentos ou imagens que passam pela mente da criança e que atraem mais do que as tarefas escolares. (PHELAN, 2005, p 19-20) Enquanto isso, a impulsividade para Phelan (2005) é agir sem pensar ou fazer algo que venha a cabeça, sem se preocupar com as consequências. Tais atos impulsivos podem ser triviais ou perigosos. A impulsividade pode também afetar o convívio social uma vez que podem ter atos agressivos com as outras crianças quando não é feito o que ela deseja.

A impaciência está intimamente liga segundo Phelan (2005), a dificuldade de esperar ser atendido, enquanto hiperatividade significa inquietação motora excessiva e agressiva. Superexecitação segundo o autor é a intensidade de sentimentos, enquanto os problemas sociais são decorrentes do fato de serem mandonas e agressivas, o que acarreta a desobediência que é resultado da dificuldade de seguir regras e de serem desorganizadas, e esquecidas.

Em decorrência dessas características marcantes, Phelan (2005) nos diz que a definição atual de TDAH inclui uma lista proposta pela DSM-IV (sigla em inglês de Manual Diagnóstico e estatístico dos Distúrbios Mentais) de 18 sintomas comportamentais divididos em dois conjuntos de nove sintomas cada.

O primeiro conjunto é definido como desatenção, e os sintomas são não consegue prestar muita atenção em detalhes ou comete erros por descuido, tem dificuldades em manter atenção no trabalho ou lazer, não ouve quando abordado diretamente, não consegue terminar as tarefas escolares, os afazeres domésticos ou deveres do trabalho, tem dificuldades em organizar atividades, evita tarefa que exijam esforço mental prolongado, perde coisas, distrair-se facilmente, é esquecido.

O segundo conjunto diz respeito a hiperatividade e a impulsividade que tem como sintomas a tamborila com os dados ou se contorce na cadeira, sai do lugar quando se espera que permaneça sentado, corre de um lado para outro ou escala coisas, tem dificuldade de brincar age como se fosse movido a ilha, fala em excesso, responde antes que a pergunta seja completada, tem dificuldade de esperar sua vez, interrompe os outro ou se intromete.

Em decorrência desses conjuntos surgem os subtipos de TDAH que são tipo combinado (apresentam seis dos nove sintomas de desatenção e pelo menos seis dos nove sintomas de hiperatividade-impulsividade), tipo predominantemente desatento (apresentam seis sintomas de desatenção, mas menos que seis sintomas de hiperatividade-impulsividade) e tipo predominantemente hiperativo-impulsivo (exibem pelo menos seis sintomas de hiperatividade-impulsividade, mas menos que seis sintomas de desatenção).

Segundo DuPaul e Stoner (2007) autores do livro TDAH nas escolas as crianças do tipo predominantemente desatento exibem problemas de desatenção na ausência de impulsividade e hiperatividade, e apresentam problemas de recuperação de memória, são sonhadoras e socialmente retraídas, enquanto as do tipo predominantemente hiperativo-impulsivo apresentam comportamentos hiperativos-impulsivos na ausência de desatenção e as crianças do tipo combinado apresentam problemas com a atenção persistente, são impulsivas, agressivas e desobedientes, além de serem mais propensas a serem diagnosticas com outros problemas psicológicos.


2.6 TDAH e Outros Problemas Psicológicos


Segundo Phelan(2005) muitas vezes as crianças com TDAH podem vir apresentar outros problemas psicológicos como Transtorno de Desafio e Oposição (TDO), Transtorno de Conduta (TC), Distúrbio de Ansiedade Múltipla, Depressão Grave e Distúrbio Bipolar.

Phelan nos diz que o Transtorno de Desafio e Oposição torna as pessoas desafiadoras, deliberadamente desobedientes e rancorosas. Enquanto o Transtorno de Conduta Phelan nos diz que:

As crianças com TC querem magoar os outros. Elas não se importam se os deixam com raiva e são mais agressivas que aquelas com TDO. Os jovens com TC ameaçam, intimidam e brigam. Eles podem ser fisicamente cruéis com pessoas e com animais. Os jovens com TC roubam, forçam atividades sexuais, incendeiam e destroem propriedades. Frequentemente quebram regras ficando fora até tarde, fugindo ou cabulando aulas. As crianças com TDO geralmente evoluem para TC a medida que passa os anos. (PHELAN,2005, p. 102)

Crianças com TDAH têm uma forte tendência a apresentarem problemas de ansiedade e, quando tem sofrem mais de um distúrbio de ansiedade. Enquanto isso, a Depressão Grave de acordo com Phelan (2005) é caracterizada por períodos em que a pessoa apresenta humor depressivo o que pode acarretar mudanças de peso, fadiga, nervosismo, aumento ou diminuição de sono, sentimento de inutilidade e pensamento de morte.


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² WWW.tdah.org.br/br/sobre-tdah/o-que-e-o-tdah.html?tmpl=co... O distúrbio bipolar faz com que a pessoa viva em dois extremos, ou seja, a pessoa vai vivenciar, além de períodos de depressão, períodos distintos de humor anormalmente alegre ou irritadiço. As versões graves são conhecidas como episódios maníacos e as menos graves são chamadas de hipomaníacos assim como nos diz Phelan:

Os episódios maníacos são muito destrutivos para o trabalho para vida social e para vida em família da pessoa. Apesar disso, por incrível que pareça, a pessoa que está vivendo um episódio como esse sente-se bem. Os indivíduos maníacos não apenas sentem bem, sentem-se maravilhosos e não conseguem entender por que os outros se preocupam com eles. Sua autoestima mostra-se excelente, eles dormem muito menos, não conseguem se calar e muitas vezes se envolvem em atividades prazerosas, porém, perigosos, como gastar muito dinheiro ou fazer sexo promíscuo.

Como no caso dos maníacos, os episódios hipomaníacos também são períodos distintos de bom humor e de maior atividade mental e física, mas a hipomania não é tão grave ou destrutiva como a mania. Um episódio hipomaníaco pode rapidamente se agravar em um ou dois dias e durar de semanas a vários meses. Ele pode ser precedido ou seguido por um episódio depressivo, mas geralmente os períodos hipomaníacos são mais curtos – e começam mais rápido- que os episódios depressivos. (PHELAN, 2005, p 103 – 104)

Diante desses diversos tipos de problemas que podem acompanhar uma criança com TDAH cabe ao professor com a ajuda de um psicopedagogo realizar intervenções a partir de entrevistas e estudo de caso para que tenha um diagnostico eficaz que mostre os verdadeiros aspectos que interferem na aquisição de aprendizagem do aluno para que assim disponham de métodos eficazes para estimular o aluno a pensar vencendo as barreiras que este transtorno pode trazer para ele.


2.7 Intervenção Psicopedagógica


Intervir é uma ação predeterminada, uma vez que, alguém em uma atitude ativa estabelece uma ligação com outra pessoa, e assim, produz transformações. Sendo assim, cabe ressaltar que o psicopedagogo propõe através de suas ações que o próprio sujeito seja autor de sua aprendizagem.

A intervenção psicopedagógica de acordo com Maria Ângela Calderi Oliveira autora do livro “Intervenção Psicopedagógica na Escola”, requer que o profissional se posicione em relação às diferentes tendências que foram delineadas por meio de análises criticas e reflexivas frente ás demandas da escola.

Desta forma, o psicopedagogo tem a função de detectar os obstáculos que podem estar atrapalhando o fluxo do ensinar e aprender, tais obstáculos devem ser pensados a partir da integração de diferentes forças que englobam o espaço institucional, portanto a ação interventiva segue o foco de reflexão entre o espaço e as relações entre vínculos de quem ensina e de quem aprende.

De acordo com Monero e Solé (2000, apud Oliveira, 2009 p. 69) algumas tendências que exemplificam a diversidade dos serviços psicopedagógicos são:

A primeira tendência refere-se a um trabalho psicopedagógico concebido como uma modalidade da individualização do ensino. A instituição escolar oferece respostas suscetíveis de adequarem-se as condições de seus alunos. É uma tendência que não responde as expectativas que estamos estruturando diante da ação psicopedagógica na instituição educacional, parecendo direcionar a ação interativa para o aluno que representa o fracasso escolar. Relacionado com as unidades de analise da Psicopedagogia, essa tendência tem seu foco no indivíduo.

A segunda tendência refere-se a ação pedagógica, e é voltada para o contexto concreto da instituição educativa, e transcende seu caráter de “lugar físico”, no qual é produzida a intervenção, para tornar-se objeto da intervenção não descaracterizando a escola dos objetivos que socialmente lhe são conferidos. [...]

A terceira tendência diz respeito a ação psicopedagógica que auxilia a escola a pensar sobre seus propósitos e fazê-los de forma coerente com finalidades educativas socialmente estabelecidas, que são expressas nas previsões normativas de que pretende um estado soberano.

Desta forma, o objeto de estudo é tudo aquilo que está vinculado com a relação ensinar-aprender, ou seja, o alvo não é somente o aluno com problemas de aprendizagem, mas também os mecanismos que interagem na construção do processo, porém toda atuação requer um planejamento vinculado com o contexto institucional onde será aplicado.

Os recursos para construção desse planejamento devem conter possibilidades de intervenção para o processo de aprender obstaculizado, como também para situações de ações preventivas.

Tais recursos de acordo com Oliveira (2009) têm sua origem na Psicologia e Pedagogia, sendo que os da Pedagogia também auxiliam na relação professor – aluno.

Os recursos podem ser de mudança de situação, informação para provocar um movimento numa determinada tarefa, acréscimo de modelo para apresentar uma nova opção de acordo com uma determinada atitude efetivada, modelo de alternativa múltipla oferece algumas que permitem a reflexão, problematizarão situações problemas onde hipóteses sejam levadas, testadas confirmadas ou não, colocando certa ordem na confusão social.

Os recursos são ferramentas de uso contínuo na prática do psicopedagogo na instituição educacional, porém não são de uso exclusivo da Psicopedagogia, educadores em todas as funções podem valer desses recursos, a fim de facilitar o desenvolvimento da atitude operativa, que é de fundamental importância para a intervenção da aprendizagem.

A partir de todas essas informações a ação psicopedagógica é vista como fundamental para o desenvolvimento de um diagnóstico. A prática interventiva é delineada a partir dele, devido ao fato de ser no diagnóstico que se identificam as singularidades do processo de aprendizagem, assim como as potencialidades, dificuldades e competências, para posterior planejamento e ação pedagógica. A proposta do diagnóstico psicopedagógico, segundo Oliveira (2013) tem seus fundamentos em pressupostos científicos que os levaram a compreender o fenômeno, em que a realidade é significada a partir de conceitos e teorias.

Desta maneira, o diagnóstico vai além de uma coleta de dados, devido ao fato do mesmo ser um momento de transição para a intervenção posterior, uma vez que usa de aproximação para se envolver com o objeto de estudo.

Oliveira (2013) nos diz que o diagnóstico psicopedagógico é:

O diagnóstico psicopedagógico é um processo que deve ser entendido a partir de uma visão de rede. A dinâmica das relações que se estabelecem em torno do foco do diagnóstico deve ser entendida sistematicamente. O sintoma, que orienta o inicio da ação diagnóstica, surge como um sinalizador dessa dinâmica, comunicando a configuração que essa rede de relações está assumindo naquele momento. (OLIVEIRA, 2009; p 97)

Tendo como base o trecho anterior, entende-se que o fenômeno psicopedagógico está envolvido no processo de ensinar – aprender, a partir do momento que compreende as causas que levam a existirem os sintomas, ou seja, todo o processo diagnóstico tem por objetivo orientar o processo de intervenção significativo sobre o sujeito ou instituição.

Após a conclusão do diagnóstico o psicopedagogo se torna capaz de detectar métodos eficazes para intervir nos diversos impactos psicológicos que podem impedir os processos cognitivos das crianças , assim como é no caso dos portadores de TDAH.


2.8 TDAH na escola e mediação psicopedagógica

Para que haja uma mediação psicopedagogica é necessário que o profissional compreenda o processo que envolve a aprendizagem , ou seja, é importante que entenda que a aprendizagem envolve um processo, onde diversas funções do sistema nervoso estão se fundindo para que seja possível promover a adaptação do indivíduo com o meio.

Em seu livro “TDAH – Interdisciplinaridade, Intervenção e Reabilitação” Mauro Muskat nos diz que:

Na aprendizagem, ocorre a interação entre o indivíduo e o meio através da experiência, gerando mudanças. O meio fornece as informações que deverão ser processadas pelo indivíduo, e a aquisição e o processamento da informação ocorre por meio de três etapas: entrada (input), processamento e saída (output). O input ocorre através de vias aferentes – visão, audição e somatossensitiva (tato, gustação, olfato) -, constituindo a percepção sensorial da informação pelo cérebro. Os processamentos ocorrem em áreas corticais perceptivas e motoras. Esse processamento exige integração de áreas corticais e subcorticais, onde a informação é organizada, integralizada e armazenada. O output ocorre pelas vias eferentes motoras. (MUSKAT; 2012, p. 133)


Desta maneira, a motivação e afetividade tornam-se fundamentais para aprendizagem, uma vez que, quanto mais interessante, mais fácil sua retenção e resgate. Além dessas características, durante o processo segundo Muskat também são requisitadas as funções cognitivas e funções executivas, como atenção e memória.

A cognição é um conjunto de várias habilidades que se unem para selecionar problemas apresentados pelo ambiente.

A atenção e a memória são essências na aquisição de novas habilidades, ou seja, a atenção filtra as informações e mantém sob o foco a informação desejada. A memória ocupa a função de selecionar, analisar, conectar e resgatar as informações novas e aquelas aprendidas.

Tendo em vista essas informações, o transtorno é caracterizado pela dificuldade na modulação da atenção, no controle dos impulsos e na capacidade que a criança tem sob o controle de sua coordenação.

A criança com TDAH apresenta dificuldades para aprender, devido ao fato de apresentarem déficits de atenção e de função executiva, uma vez que estas são responsáveis pela aprendizagem assim como nos diz Muszkat:

A atenção e a função executiva são fundamentais na aprendizagem escolar, pois permitem o processamento da informação , a integração de informação selecionadas , os processos mnêmicos (estratégias de memorização e retrieval da informação armazenada na memória , na programação de respostas motoras e comportamentais). (MUSZKAT, 2012, p. 135)

Além disso, portadores do TDAH apresentam a linguagem expressiva algumas vezes comprometida, assim como a dificuldade na inibição motora e agitação motora.

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental crianças com TDAH começam a ser percebidos como desatentos e hiperativos, devido ao fato de serem no contexto escolar que a inquietude e a impulsividade ser interpretada como indisciplina e a desatenção, como negligência.

Muszkat (2012, p.135) nos diz que “Estudos sobre conhecimento e percepção dos professores a respeito do TDAH alertam para pouca informação referente ao mesmo e a necessidade maior comprometimentos dos professores com o diagnóstico, o manejo e o tratamento dessas crianças”

Desta forma, entende-se que existe a necessidade de um cuidado especial quanto á observação do comportamento dessas crianças no ambiente da aprendizagem, uma vez que os professores devem contribuir para o processo de formação da autoestima e da autoimagem. Caso os alunos forem constantemente apontados como diferentes poderão desenvolver uma imagem negativa de s mesmos o que ocasionará um mal desempenho no processo de ensino-aprendizagem. A escola deve oferecer atividades apropriadas para desenvolver as capacidades dos alunos, além de ter o cuidado com a família, afinal é nesse local onde o primeiro vinculo se desenvolve.

Muitas vezes dificuldades de aprendizagem estão ligados a problemas dentro da dinâmica familiar, desta forma, há intervenções psicopedagógicas que não mostram progresso e, diante desse fato a família deve ser envolvida no atendimento.

Partindo desse pressuposto, a atenção psicopedagógica deve ir além do atender crianças com dificuldades para aprender, em suas condições físicas e mentais, deve ultrapassar as singularidades e avançar sobre o contexto social, unindo educação e saúde, que juntas multiplicam informações e ações para a compreensão dos processos de ensinar e aprender.

O autor Muszkat (2012, p. 136) ressalta que “A Psicopedagogia mediadora cumpre o trabalho de pensar e atuar como intermediário nas questões sociais e de comportamento, na comunicação e linguagem nas atividades pedagógicas e atividades envolvidas nos diversos níveis escolares.”.
De acordo com o trecho do autor percebe-se que o psicopedagogo mediador tem sua prática voltada para a interação e o processo de ensino–aprendizagem o que acarreta em uma intervenção que ajude o aluno a organizar seus pensamentos para que seja possível que compreenda o ambiente e desenvolva autonomia e autocrítica.

O objetivo da ação mediadora é contribuir para o desenvolvimento de uma forma autônoma e mais elaborada em relação aos desafios, onde o mediador adapta o objeto de conhecimento de acordo com as necessidades do indivíduo.


2.9 Estratégias de Intervenção Baseadas nas Escolas

Na escola as regras devem ser seguidas, a interação deve acontecer de forma apropriada, o que é ensinado consequentemente deve ser aprendido, porém a partir do momento que existem crianças diagnosticadas com TDAH esse trabalho de ensinar torna-se ainda mais desafiador, uma vez que os comportamentos característicos dessa criança interferem na aprendizagem em sala de aula e impedem interações sociais positivas.

Ao se depararem com o TDAH os profissionais, segundo DuPaul E Stoner devem assumir um enfoque continuo e sistemático para criação, implementação e avaliação de ajustes para uso em sala de aula que combine abordagens preventivas e remediadoras, afim de lidar com os problemas apresentados.

Crianças com TDAH são propensas a experimentar dificuldades de aprendizagem acadêmico e social, devido ao fato de ambos estarem interligados, o que leva aos profissionais adotarem uma prática de intervenção pautada nas habilidades e conhecimentos necessários para substituir os comportamentos problemáticos por outros aceitáveis. Um enfoque educativo representa uma alternativa de intervenção que foca-se na redução dos comportamentos problemáticos.

Com o enfoque educativo surgi a necessidade de um plano de apoio ao professor e é neste momento que o psicopedagogo se faz necessário para propor a preparação conceptual e prática que geraram a criação, a oferta e avaliação dos resultados de intervenção.

Para obter um resultado positivo é necessário que o Psicopedagogo tenha em mente um planejamento de intervenções comportamentais, onde seja possível conduzir uma avaliação detalhada dos problemas específicos que servirão de base para a seleção de componentes de intervenção, sem deixar de lado a necessidade que os portadores de TDAH tem de feedback ou reforço, neste momento deve ser ensinado a criança a partir resumos breves e claros, para que depois o conhecimento seja repetido pela criança para observar se ela realmente entendeu.

O reforço deve ser visto como marco das estratégias de um manejo comportamental na sala de aula, um estimulo que aumenta a probabilidade do aprender. Além do reforço, existem as práticas diárias de intervenção em crianças com TDAH.


2.10 Práticas Diárias de Intervenção PSICOPEDAGÓGICA em Crianças com TDAH

Alunos com TDAH segundo Rodhe (2003 apud MUSKAT, 2012, p. 143), necessitam de uma estrutura bem definida, de uma sala de aula estruturada e com número pequeno de alunos, uma organização dinâmica e flexível, o aluno deve sentar-se próximo ao professor, no meio de colegas tranquilos, e as aulas devem ser rotineiras e claras, as regras devem ser claras e curtas e é necessário estabelecer consequências para o não cumprimento de tarefas.

Desta forma, o psicopedagogo junto com a ajuda do professor deve propor atividades que exultem as capacidades desses alunos, a fim de enfrentar os obstáculos propostos pelos aspectos que dificultam a aprendizagem.

Tendo em vista essas práticas e o auxilio dos profissionais da educação a compreensão e a intervenção devem estar bem claras na proposta pedagógica para que o psicopedagogo tenha uma visão diferenciada sobre a aprendizagem, desresponsabilizando o portador do TDAH, ampliando as possibilidades dele vislumbrar suas potencialidades e habilidades, a fim de enfrentar os aspectos neurobiológicos que dificultam a aprendizagem exultando as formas de driblar o desafio, a fim de alcançar uma aprendizagem significativa.


3.0 Conclusão

A partir dos estudos e pesquisas chego à conclusão de que os professores ainda desconhecem um pouco a importância do psicopedagogo, uma vez que esse ao estar presente no ambiente escolar pode ajudar e muito esses profissionais na rotina de sala de aula, devido ao fato de terem conhecimentos específicos sobre problemas de aprendizagem que interferem a aquisição de conhecimento. Além disso, ressalto aqui a importância da intervenção psicopedagógica em crianças com TDAH para que estas aprendam a enfrentar as dificuldades que as impede de ter um bom desempenho social e cognitivo.


4.0 Referências bibliográficas


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BEAUCLAIR. João. Psicopedagogia: trabalhando competências, criando habilidades. 2. ed. Rio de Janeiro: Wak, 2004.

DUPAUL, George J.; STONER, Gary. TDAH nas escolas: Estratégias de avaliação e intervenção. São Paulo: M. Books do Brasil Editora, 2007.

FOSENCA, Maria Fernanda B. C. Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade na escola e mediação psicopedagógica. In: ¬¬¬_____ TDAH e interdisciplinaridade: intervenção e reabilitação. São Paulo: All Print Editora, 2012. Cap. 9, p.133-151.

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SÁ, Márcia Souto Maior M. (Org). Introdução à psicopedagogia. 3.ed. Curitiba: IESDE, 2013.

SERRA, Dayse Carla Gênero. Teorias e práticas da psicopedagogia institucional. Curitiba: IESDE, 2012.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Marcela Guimarães Girardi Pereira

por Marcela Guimarães Girardi Pereira

Graduada em Pedagogia Pós Graduada em Psicopedagogia Capacitação Psicopedagogia Clínica

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