CINEMA E O ENSINO DA HISTÓRIA: UM RECORTE EASTWOODIANO SOBRE A II GUERRA MUNDIAL

Percebe-se que o cinema é um recurso valoroso ao profissional da história
Percebe-se que o cinema é um recurso valoroso ao profissional da história

Educação e Pedagogia

03/03/2015

A aproximação entre cinema e história não é recente. Segundo Guimarães (2002) desde o início do século XX há registros, publicações de intelectuais, cineastas, historiadores e educadores sobre história e cinema e a possibilidade de uso do cinema na educação.

Percebe-se que o cinema é um recurso valoroso ao profissional da história, uma vez que por vias fílmicas é possível analisar discursos e ideias, num panorama histórico, garantindo ainda a oportunidade de romper com o modelo tradicional de aula expositiva.

Contudo, é importante frisar, o uso fílmico em sala não exime o educador de seu papel mediacional e/ou de sua necessidade de aferir o conhecimento adquirido pelo aluno. Neste contexto, para Líbaneo Guedes (apud Guimarães, 2002), o uso do cinematógrafo como auxiliar de ensino não deve ser confundido com o uso do cinematógrafo como meio de recreação.

Desta maneira o cinema na disciplina de história não deve assumir um caráter recreacional, mas sim como uma forma diferente de abordagem, mais lúdica, e discussão dos fatos e da própria história.

 

Cinema: as pistas e a não verdade

 

Tal como uma obra de arte não pode ser assumida como verdade absoluta ou trampolim para o real, devido a objetividade do processo técnico que garante e/ou assegura seu valor artístico ou testemunhal, assim é o cinema, todos podem ser igualmente falsos, todos podem ser montados, neles pode conter verdades e inverdades.

Por este prisma, a historicidade de um filme, seja ele ficcional ou documentário, tem uma história e múltiplas significações, ou seja, o valor e efusividade da obra não tem seu valor educacional medido apenas por aquilo que testemunha, mas também pela abordagem sócio-histórica que ela suscita.

Para Guimarães (2002) o cinema expressa um entrecruzamento de diversas práticas sociais, de poesia, história, estética e técnica, arte e ciência. Nesse sentido o incorporar do cinema, na prática, o ensino da história requer que nós professores venhamos a romper com a concepção de história escolar como uma verdade.

Para Jenkins (2004) a história é um discurso em constante transformação construído pelos historiadores e que da existência do passado não se deduz uma interpretação única: mude o olhar, desloque a perspectiva, e surgirão novas interpretações.

Sendo assim, é importante ao profissional na história entender o filme como um instrumento que pode oferecer pistas, referências sobre valores, os costumes, os ideais e os acontecimentos que marcaram uma determinada época.

 

Os dois lados da história: um recorte Eastwoodiano sobre a II Guerra Mundial

 

A guerra é a utilização da violência de forma generalizada na tentativa de resolver problemas e/ou divergências. Na perspectiva do historiador Hobsbawn, a humanidade sobreviveu, contudo o grande edifício da civilização do século XX desmoronou nas chamas da guerra mundial, quando suas colunas ruíram.

A II Guerra Mundial é um reflexo de uma série de fatores que não foram equalizados ao término da I Grande Guerra, a reorganização espacial da Europa bem como o levante de ideologias totalitárias como o movimento fascista e o nazista, somado ao processo de expansão imperialista do Japão na Ásia foram motivas da culminância deste segundo conflito, o maior da humanidade.

Diversos cineastas buscaram registrar este conflito de maneiras diversas. A guerra sempre foi um dos motes temáticos trabalhados pela indústria cinematográfica, em especial na construção de ideias e/ou fomento de um valor. No caso da II Guerra Mundial, foi um veículo de manipulação das massas e do enaltecimento dos ideais norte-americanos.

A guerra contada na perspectiva estadunidense, quase sempre, tem em sua narrativa a exaltação de sua participação no conflito como estes sendo arautos da libertação, negando o outro lado da história.

Quando tratamos deste tema, nos focamos nas batalhas ocorridas em campo ocidental, tendo poucas, ou quase nenhuma, observação sobre os conflitos em solo oriental, em especial nos espaços assumidos ou controlados pelo então Império do Japão.

Após o ataque de Pearl Harbor, os Estados Unidos se iram fragilizados frente ao ataque nipônico e diante das investidas em pedido de apoio feitas pela Inglaterra, na figura de Winston Churchill, não houve outra alternativa a não ser encarar o conflito de frente, de maneira mais efetiva com envio de tropas.

Um dos pontos decisivos no embate com o rival oriental é a batalha ocorrida na ilha de Iwo Jima, ponto de resistência do Japão e alvo inicial da campanha americana.

Dentre os cineastas americanos, Clint Eastwood propôs um duplo olhar entre este momento fatídico do confronto. Apresentou em duas obras perspectivas diferentes sobre o processo de luta tendo a ilha como campo: A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima.

Em A Conquista da Honra, o diretor apresenta a guerra e a construção do marketing da colaboração civil para vitória militar, bem como o conflito com legitimação dos ideais americanos e o uso de pseudo-heróis como fantoches do marketing governamental.

Aqui é apresentada a crise de dignidade de valores de soldados, como pressuposto de modelar a retórica do poder americano e a lógica do espetáculo para desviar o olhar popular de outras problemáticas nacionais vigentes à época.

Já em Cartas de Iwo Jima apresenta um processo inverso, ou seja, a construção da dignidade em uma derrota iminente, ora por decisões pessoais, seja por suicídio ou por rendição, ora reproduzindo a ideologia nipônica pelo orgulho e honra do Império Japonês.

Até então, um olhar humanizado do inimigo não tinha sido registrado de forma tão singela como Eastwood inaugurou nesta temática. Enquanto em A Conquista da Honra se trabalha numa saturação da imagem mito, fruto de um marketing voraz para a sustentação midiática de um ideal de vitória e da legitimação da permanência e investimentos no conflito, Cartas de Iwo Jima opera no subterrâneo dessa imagem histórica.

Mesmo lançados a sorte pelo seu Império, os soldados japoneses sob a regência do General Kuribayashi deveriam manter, até o fim, a posse da ilha e, numa eventual derrota, o orgulho sobre o solo sagrado do Japão.

É importante salientar que o discurso de vitória em A Conquista da Honra e o de derrota em Cartas de Iwo Jima não representam, no todo, uma verdade absoluta, mas uma visão que suscita o debate e o questionamento sobre esta situação.

A pouco rigorosidade da lógica narrativa que Eastwood propõe em suas obras, não convida a reconsiderar posicionamentos previamente estabelecidos que nem é dos americanos em A Conquista da Honra, nem dos japoneses em Cartas de Iwo Jima, mas uma soma dos enfoques e é nesta combinação que pode surgir o debate historiográfico.

Para Guimarães (2002) os filmes como produtos socioculturais, podem falar ao historiador sobre a história que não correu, sobre as possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se concretizaram, levando-nos a ver o “não visível através do visível”, a descobrir “o latente por trás do aparente”.

Desta maneira o cinema no ensino da história pode ser uma provocação, não a realidade, mas sim a possibilidade. Pode ser uma fonte ao professor para instigar ao questionamento das realidades construídas ou impostas. É o cinema é o convite à discussão e a reconsideração de fatos de maneira lúdica e com grandes chances de sucesso.

Devemos estar cientes, na condição de professores de história, que a linguagem cinematográfica não tem por obrigação o compromisso com a realidade, a verdade ou com a historiografia e sua didática.

Por fim, o cinema se mostra uma importante ferramenta de pesquisa e de estratégia didática para o ensino de história, todavia, exige de nós historiadores, uma postura crítica e problematizadora, tal como se teria com as demais fontes históricas.

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

GUIMARÃES, Selva. Didática e prática de ensino de História: Experiências, reflexões e aprendizados - 13º ed. rev. Ampl – Campinas. Papirus, 2012. (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).

HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX, 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

JENKINS. Keith. A história repensada. Tradução de Mario Vilela, 2 ed.  – São Paulo: Contexto, 2004.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Felipo Luiz Abreu de Oliveira

por Felipo Luiz Abreu de Oliveira

Olá Pessoal, sou Felipo Abreu. Técnico em Publicidade pelo SENAC/SP, Turismólogo formado pela UNESPAR/PR e Licenciado em História pelo CEUCLAR. Especialista em Artes visuais pelo SENAC/RR e pós-graduado em Museografia e Patrimônio Cultural pelo CEUCLAR. Gestor em cultura e turismo desde 2005. Atualmente é docente e mediador do programa de regionalização do turismo no SENAC Sorocaba.

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