Cursos Preparatórios para Residência Médica

A concepção do meio acadêmico em relação aos CPs é controversa e motiv
A concepção do meio acadêmico em relação aos CPs é controversa e motiv

Concursos Públicos

26/07/2013

A Residência Médica (RM) está consagrada como a melhor forma de inserção de médicos na vida profissional e de capacitação numa especialidade. Observa-se uma discrepância entre o número de formandos candidatos à RM e o número de vagas credenciadas. Nesse contexto, alunos do quinto e sexto anos sacrificam a graduação médica durante os estágios curriculares para se dedicarem aos Cursos Preparatórios (CPs) para a RM. A competição acirrada por vagas de RM e os modelos de prova que priorizam o conhecimento teórico levam os estudantes a buscar alternativas para ingressar nos programas de RM, como os cursinhos preparatórios (CP). Os CP utilizam estratégias de ensino similares às dos cursinhos pré-vestibulares, com aulas semanais, organização do curso em módulos, revisões próximas das provas, resolução de questões, etc. Dispõe de material didático bastante objetivo, focado na resolução de questões de provas, com estética atraente, leitura simples e discussão de questões de exames anteriores de diversas instituições. Têm infraestrutura ampla, bons auditórios e disponibilizam aulas presenciais e transmitidas via internet.1

A concepção do meio acadêmico em relação aos CPs é controversa e motivo de intenso debate. 3 Leite et al.,conduziram um estudo que avaliou a efetividade dos CPs. Mediante um questionário dirigido aos candidatos do concurso de RM do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora (HU-UFJF), realizou-se um estudo para avaliar a efetividade da preparação de alunos em CPs. A adesão foi de 74,7% dos 368 concorrentes, sendo que a maioria frequentou CPs (72%). Não houve diferença significativa de aprovação entre os candidatos que se prepararam em CPs e os que não os frequentaram. Já a média das notas dos candidatos que frequentaram CPs foi 4,07 pontos maior (66,89 contra 62,82, p < 0,05). Conclui-se que, no modelo tradicional de avaliação, cuja prova teórica corresponde a 90% da nota final, a preparação dos alunos que frequentaram CPs é mais eficaz, o que enaltece a memorização em detrimento de habilidades médicas. 2

Chehuen Neto et al., conduziram estudo que buscou conhecer as expectativas dos alunos de Medicina em relação à RM, bem como suas opiniões sobre o surgimento dos CPs. Foram aplicados questionários com oito perguntas objetivas a 70,83% dos alunos do sétimo, oitavo e nono períodos da Faculdade de Medicina (FM). Todos afirmaram conhecer o método dos CPs, 76% pretendem se matricular; dos que não têm essa intenção, 63,17%, o principal motivo declarado é a falta de condições financeiras, 59,45% desaprovam o método atual de avaliação para a RM. 3 Quando perguntados sobre se já haviam utilizado material de CP para estudo, observou-se aumento progressivo de respostas afirmativas com o avançar dos períodos. Os motivos para isto foram as provas de faculdade e uso do material como método de estudo (decrescentes com o avançar dos períodos) e preparação para RM (crescente com o avançar dos períodos). Com relação a motivos para futuramente se matricularem em CP, foram elencados: preparação com o material e aulas, o fato de o compromisso semanal motivá-los a estudar sempre, atualização e revisão para a prova, e porque a maioria dos estudantes faz (este motivo, decrescente com o avançar dos períodos). 3,1

Segundo Leite et al., os acadêmicos, cada vez mais, deixam atividades curriculares em segundo plano e se matriculam nesses cursinhos.2 Corroborando com a discussão de Chehuen Neto et al., de que essa iniciativa privada se contrapõe ao nobre modelo universitário em que os estudantes devem ser estimulados a buscar o próprio conhecimento, pois os CP prezam a memorização em detrimento do raciocínio clínico.2 Segundo Jatene, ex-ministro da saúde, a função das escolas médicas é formar médicos para atendimento da população. Entretanto, o que se vê, são alunos do quinto ou sexto ano do curso de medicina se preparem para prestar concurso para a residência médica e se tornarem especialistas numa determinada área da medicina. Ele apresentou uma proposta de refirma na educação médica, onde o aluno, após o sexto ano, teria de ficar dois anos no Programa Saúde da Família sob supervisão da faculdade de origem e no Estado ou região onde se formou. Este seria o pré-requisito para depois ir para a residência médica. 4
Em uma perspectiva mais atual, Silva et al., realizaram um estudo em 2011 com o objetivo de conhecer a opinião dos alunos do internato do Curso de Medicina da Universidade de Brasília sobre os cursos preparatórios para a residência médica. O estudo foi realizado com aplicação de questionário padronizado aos alunos do primeiro ano do internato.Participaram do estudo 67 dos 74 alunos (90,5%) dos dois primeiros semestres do internato. Dentre eles, 57 (85,1%) estão matriculados ou pretendem matricular-se em cursos preparatórios. Apenas 28,4% (19 alunos) acreditam que a participação nestes cursos atrapalhe as atividades do internato. A participação nos cursos preparatórios é considerada crucial para a aprovação nas provas de residência médica por 36 entrevistados (53,7%). Quando questionados quanto ao fator mais importante para a aprovação na prova de residência, 91,0% afirmaram ser o período de estudo teórico. Já quando o enfoque do estudo é a formação profissional, 92,5% reconheceram serem mais importantes as atividades desenvolvidas durante o internato. A maior parte dos alunos entrevistados considera que a participação em cursos preparatórios é importante para a aprovação nas provas para ingresso nos programas de residência médica e que esta participação não atrapalha as atividades do internato.5

Segundo Martins MA., os cursos preparatórios permitem a revisão e a aquisição de conteúdo, porém não substituem a prática na formação médica. O último ano do curso de medicina é o período em que a maioria dos alunos pretende matricular-se em cursos preparatórios. 6 Fica justificado assim por que o internato é a etapa da formação mais intensamente prejudicada. É necessária, portanto, a adequação do modelo de avaliação para o ingresso na residência médica aos métodos de ensino adotados pelas Faculdades de Medicina. A medida do conhecimento teórico é de extrema importância, porém deve ser acompanhada da avaliação da habilidade, competência, capacidade de resolução de problemas e conduta ética. 6

Referencias Bibliográficas
1- Hamamoto Filho PT, Zeferino AMB. Cursinhos preparatórios para residência médica: reflexões sobre possíveis causas e consequências. Ver.Bras.Educ. Med. 2011, 35 (4): 550-556.

2- Leite ICG, Teixeira MTB, Neves HS, Oliveira LRS,Garcia LAO,Cunha PHM. Avaliação da efetividade dos cursos preparatórios para residência médica. RevBrasEduc Med. 2008, 32(4):445-51.

3- Chehuen Neto JA; Sirimarco MT; Kawata Choi CM, Fava AS, Oliveira LRS, Cunha PHM. Cursinhos preparatórios para residência médica: expectativas e opiniões. Rev.Bras.Educ. Med. 2009, 33(2):205-11.

4- Montalti E. Adib Jatene propõe reforma no ensino e residência médica durante abertura dos 50 anos da FCM. Disponível em <http://www.fcm.unicamp.br/fcm/fcm-hoje/noticias/2012/adib-jatene-propoe-reforma-no-ensino-e-residencia-medica-durante-abertura-dos>. Acessado em 09 de Abril de 2013.

5- SILVA, Silvana Marques e et al . Cursos preparatórios para a residência médica: visão dos estudantes de medicina. Rev. Col. Bras. Cir., Rio de Janeiro, v. 38, n. 5, Oct. 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-69912011000500012&lng=en&nrm=iso>. access on 11 Apr. 2013.

6- Martins MA. A Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM)e a proposta de instituição de um exame de habilitação para o exercício da medicina no Brasil [on-line]. Rio de Janeiro: ABEM; set2005.

Esta apresentação reflete a opinião pessoal do autor sobre o tema, podendo não refletir a posição oficial do Portal Educação.


Daniel Corradi Carregal

por Daniel Corradi Carregal

Graduando em Medicina pela Faculdade de Medicina de Barbacena FAME-FUNJOB. Monitor Introdução a Prática Medica 2012-2012 Técnica Cirúrgica 2011-2012,Iniciação Científica I 2012-2012 e Iniciação Científica II 2012-2012 da Faculdade de Medicina de Barbacena. Membro integrante e efetivo da Liga Acadêmica de Psiquiatria LAPSI-FAME 2010-2013. http://lattes.cnpq.br/4147348357058748

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